Achei isso no meu e-mail, escrevi no segundo ano de faculdade, em 2004, para o curso de Jornalismo Opinativo. Bom perceber que ainda penso assim.
Louro José e as pílulas de felicidade
Dia desses eu vi na TV o Louro José, papagaio da Ana Maria Braga, vociferando contra as declarações do atacante Ronaldo (o Cicarelli), que, após a derrota para o Equador, disse que jogar na altitude de Quito era “desumano”. De acordo com a marionete da apresentadora, o jogador não teria direito a reclamar porque ganhava salários altos demais para tal.
O protesto do Louro tem raízes em um pensamento da sociedade capitalista atual: o grande objetivo na vida não é ser feliz, mas sim, rico. Se o salário é alto, nada mais interessa. E você não tem direito de reclamar dos reveses que a vida lhe traz. O que mais me incomodou, no entanto, não foi a fala do Louro, tão presente nos discursos atuais, mas o fato de que eu nunca havia me apercebido do materialismo nela contida.
Eu poderia justificar que os jogadores de futebol têm rendimentos proporcionais à renda que geram, mas tal desculpa seria tão capitalista quanto o modus faciendi dos que criticam os reclamos dos atletas. O fato é que, por mais que se pregue o contrário em livros de auto-ajuda, filmes hollywoodianos ou discursos vazios mundo afora, houve um desvirtuamento da finalidade de estarmos aqui.
A explicação pode ser encontrada em um desses odiados e-mails direcionados com mensagens em powerpoint: todos somos malabaristas, e equilibramos cinco bolas durante a vida. Quatro delas são de vidro: a família, a saúde, os amigos e o espírito. Se caírem, terão danos permanentes. A outra, é de borracha e quica quando bate no chão: o trabalho. Isto seria a mais pura definição do nosso objetivo vital. A verdade, todos sabemos, é outra.
Que jogue a primeira pedra quem nunca descuidou da saúde, passando períodos em claro, em frente ao computador, somente para cumprir prazos no trabalho. Quem nunca faltou a uma reunião de família ou amigos por ter um compromisso “inadiável” no trabalho. Como se alguém fosse imprescindível profissionalmente...
O que mais reclama dos maltratos, no entanto, é o espírito. É este quem sofre quando percebe que foi deixado de lado para propósitos nada gloriosos. E é quem vai olhar para trás, no último suspiro da existência, e conferir que, entre os momentos que mais a marcaram, não há nenhum relacionado à parte profissional. Afinal, enquanto os cifrões que aparecem todo final de mês são pílulas de felicidade, sentir-se querido por alguém a quem também se quer causa marcas indeléveis.
Escrito em novembro de 2004
Louro José e as pílulas de felicidade
Dia desses eu vi na TV o Louro José, papagaio da Ana Maria Braga, vociferando contra as declarações do atacante Ronaldo (o Cicarelli), que, após a derrota para o Equador, disse que jogar na altitude de Quito era “desumano”. De acordo com a marionete da apresentadora, o jogador não teria direito a reclamar porque ganhava salários altos demais para tal.
O protesto do Louro tem raízes em um pensamento da sociedade capitalista atual: o grande objetivo na vida não é ser feliz, mas sim, rico. Se o salário é alto, nada mais interessa. E você não tem direito de reclamar dos reveses que a vida lhe traz. O que mais me incomodou, no entanto, não foi a fala do Louro, tão presente nos discursos atuais, mas o fato de que eu nunca havia me apercebido do materialismo nela contida.
Eu poderia justificar que os jogadores de futebol têm rendimentos proporcionais à renda que geram, mas tal desculpa seria tão capitalista quanto o modus faciendi dos que criticam os reclamos dos atletas. O fato é que, por mais que se pregue o contrário em livros de auto-ajuda, filmes hollywoodianos ou discursos vazios mundo afora, houve um desvirtuamento da finalidade de estarmos aqui.
A explicação pode ser encontrada em um desses odiados e-mails direcionados com mensagens em powerpoint: todos somos malabaristas, e equilibramos cinco bolas durante a vida. Quatro delas são de vidro: a família, a saúde, os amigos e o espírito. Se caírem, terão danos permanentes. A outra, é de borracha e quica quando bate no chão: o trabalho. Isto seria a mais pura definição do nosso objetivo vital. A verdade, todos sabemos, é outra.
Que jogue a primeira pedra quem nunca descuidou da saúde, passando períodos em claro, em frente ao computador, somente para cumprir prazos no trabalho. Quem nunca faltou a uma reunião de família ou amigos por ter um compromisso “inadiável” no trabalho. Como se alguém fosse imprescindível profissionalmente...
O que mais reclama dos maltratos, no entanto, é o espírito. É este quem sofre quando percebe que foi deixado de lado para propósitos nada gloriosos. E é quem vai olhar para trás, no último suspiro da existência, e conferir que, entre os momentos que mais a marcaram, não há nenhum relacionado à parte profissional. Afinal, enquanto os cifrões que aparecem todo final de mês são pílulas de felicidade, sentir-se querido por alguém a quem também se quer causa marcas indeléveis.
Escrito em novembro de 2004


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